Falaremos de turismo, entre outros "trópicos"!
Existem várias formas de viajar: na imaginação, nos pensamentos, na maionese. Também pode-se navegar sem ser no mar: na internet, nas ondas do rádio.
Mas aí, quando se fala em viajar naquela modalidade em que é preciso um avião ou um navio, essa viagem se torna restrita a poucos, em se tratando de um país como o Brasil, que ostenta o posto de um dos países mais desiguais do mundo em termos de distribuição de renda. E o turismo só acontece quando se tem uma verba discricionária, ou seja, aquele dinheiro que sobra no fim do mês, quando o essencial já foi comprado. E o que dizer em um país que hoje se vende "osso de primeira e de segunda"?
Sendo assim, peço licença para falar de uma atividade que, embora seja excludente, é uma das que mais tem potencial para gerar empregos por meio da oferta de serviços, e que pode contribuir para o conhecimento e reconhecimento de culturas diversas. O fazer turismo é, por vezes, realizar um sonho. E nesse realizar existe a beleza de ao mesmo tempo em que podemos nos encantar com lugares/paisagens imaginadas, também nos é dada a possibilidade de desmistificar paraísos. "A grama do vizinho é sempre a mais verde". Mas quando você passa a olhar para a grama do vizinho todos os dias, vai ver que ela não é tão verde assim.
Quando viajamos experimentamos a sensação de estranhar o familiar, e de familiarizar o estranho. Lembro a primeira vez que vim a Rimini na Itália e passamos por um lugar mais ermo a caminho de um restaurante fora da cidade. A um certo ponto, me deparo com uma construção no meio de um campo verde. Era grande, tinha campo de futebol bem na frente, era iluminado, tinha guarita, cerca elétrica e, logo que vi, disse a Nicola: que lugar bonito, cheio de vida... eu moraria aí. E Nicola falou, espantado: moraria? E eu: sim! No que ele me responde com uma risada sarcástica: melhor que não... isso é uma prisão. Assim como esse exemplo, eu teria vários outros só para ilustrar como naturalizamos o que é comum à cultura do nosso país. Cerca pra ele é prisão. Pra mim denota segurança (embora odeie). Passei a tentar estranhar o familiar (não é natural viver cercado de cercas elétricas), e a familiarizar o estranho (cerca, certamente e naturalmente, seria indicada somente para uso em prisões). Esse exercício, mesmo que de maneira inconsciente, fazemos o tempo todo quanto viajamos, porque neste deslocamento, carregamos nossa bagagem cultural que é, o tempo todo, confrontada com o estranhamento do modo como a cultura do "outro" se apresenta: estranha a nós, mas que a partir do momento em que a vivenciamos, ela também se torna um elemento de confronto à nossa cultura. E é desse instante que nasce o aprendizado. A relativização das coisas. Das crenças arraigadas, dos imaginários romantizados.
Os lugares turísticos são diferentes dos lugares dos habitantes. No lugar turístico habita o extraordinário, o que foge ao cotidiano. No lugar do habitante repousa o ordinário, o cotidiano. O turismo acontece nas "zonas luminosas" e o lugar de vivência do habitante ocupa as "zonas opacas", tomando por base a teoria do geógrafo brasileiro Milton Santos. Mas podemos enxergar zonas opacas em zonas turísticas? Eu fiz esse exercício na Ilha de Santorini, na Grécia, e esse será o assunto da próxima postagem. Não me deixem viajar sozinha 😊✌.
Esperando os comentários de vocês. 😬☺️
ResponderExcluirQuando viajamos encontramos outras partes de nós mesmos... E de outros, acompanhantes ou não. Viajar é um experiência sensorial, psíquica, emocional, mística... Transcendental.
ExcluirIsso mesmo! Se atravessa um portal. Basta que estejamos preparados para o novo. O outro.
ExcluirTexto maravilhoso, professora!
ResponderExcluirRepresentou demais!
👏👏👏👏🌹
Não consigo identificar quem escreveu. Me diz teu nome? 😬 E obg pelo comentário. 😉
ExcluirMinha amiga, esse comentário vai longe, ou melhor, vai perto também! Eu, vez outra, me deparo com o tipo de comentário, quando ficam sabendo que sou casada com holandês: "A Holanda é muito linda, com seus campos florais, canais, castelos..."e por aí vai, finalizando com a velha pergunta: O que vc está fazendo nesse nosso país? Eu respondo - continuando admirando as tantas belezas que nós temos também, mesmo diante das coisas feiosas provocadas pelas mãos dos homens! Termino o papo quando digo que Beleza existe em todo canto e recanto do mundo, assim como, o que nos desagrada também, basta abrir o olho cego do coração com leveza, respeito entendimento! Quando vemos o mundo par'ti'cu'lar como um todo, em todos, a viagem espacional interior dos sonhos, só agradece feliz!
ResponderExcluirNão consigo identificar quem escreveu. Me diz teu nome? É muito interessante pra mim ouvir as experiências de cada um. Obg pelo comentário! 😉🙏🏽
ExcluirAdorei o texto e já consegui fazer algumas dessas viagens citadas acima. Que bela novidade esse blog! Já aguardo o próximo texto com suas histórias engraçadas ☺️
ResponderExcluirObg, cara! Já já escrevo o próximo e espero que tu gostes! Bjao!
ExcluirTexto muito bom, gostei da leitura. É difícil imaginar segurança sem cercas, né? Quando estive na holanda e fiquei em casa de holandeses demorei a me acostumar que eles não tinham muros, cercas... e nas salas grandes portas e janelas de vidro "sem segurança" alguma pra rua, estranho pensar isso na nossa realidade por aqui no Brasil
ResponderExcluirNão é incrível, Arthur, como a gente naturalizou a violência e acabamos levando ela pra todo lugar. A percepção dela. Só depois de um tempo em um lugar seguro é que de fato introjetamos isso é relaxamos.
ExcluirZalma, adorei o texto e acho sua escrita de grande sensibilidade, consegui ler e imaginar. Muito boa a iniciativa de compartilhar conosco suas andanças.
ResponderExcluirRM
Obrigada, Raissa querida!!! Essa troca é que motiva o compartilhamento. Um grande abraço!
ExcluirQue lindo, Rosalma! Ameiii o texto! Incrível como você conseguiu utilizar de um exemplo seu para exemplificar de forma tão clara as diferenças culturais. E ainda nos trouxe essa bela reflexão sobre de como um lugar turístico pode realmente habitar o extraordinário. Ansiosa pelos próximos! :*
ResponderExcluirValeu, Querida Dani. Você, como uma bacharel em turismo que quase se tornou (rs), sabe bem do que estou falando. Forte abraço!
ExcluirComeçou muito bem o blog, Professora!!! Parabéns pela iniciativa e pela coragem em expor seus pontos de vista!
ResponderExcluirMuito bacana essa visão sobre o ato de viajar. Particularmente, sinto como um momento em que nos permitimos mergulhar um pouquinho naquele nosso lado infantil, de se encantar e interagir com o novo, de descobrir cada detalhe e se alegrar com cada momento.
:-)
Sim, Nazareno. É uma experiência muito particular de cada um. E é difícil falar de "turistas" como entidade una, pois somos todos diversos e ao mesmo tempo únicos. Um abraço e obrigada por deixar seu comentário.
ExcluirE não é o turismo o consumo dessa alteridade/ do estranhamento? Acho que não se reduz a isso mas se justifica muito nessa reflexão. Admiro e aprendo com o seu olhar antropológico ;) Mantenho relações bem contraditórias com os turismos e turistas
ResponderExcluirQue texto gostoso de ser lido
ResponderExcluirQue texto maravilhoso, professora. Que escrita boa!
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