"Não há nada mais estranho em um lugar estranho, do que o estranho que vem visitá-lo" - Relatos/retratos de viagem sobre Santorini-Grécia


    

      O turismo é aquela atividade que as pessoas fazem quando têm tempo livre, dinheiro de sobra quando o básico já foi comprado, e condições legais para fazê-lo. Não necessariamente na ordem em que foi dita acima.

    Ele abre as portas para o desconhecido, ou para reconhecer paisagens já tão comuns em nosso imaginário através da mídia ou das redes sociais.            




    Basta um olhar mais atento para perceber que os lugares turísticos são aqueles onde a infraestrutura (de iluminação, limpeza, circulação, segurança, acolhimento) são privilegiadas, em confronto com outras zonas da cidade. Imagine o lugar do ordinário, aquele lugar do habitante, em que o deslocamento se faz para chegar ao trabalho ou realizar as tarefas cotidianas. 

   Quase não prestamos atenção na cidade em que habitamos, afinal, fazemos quase sempre o mesmo percurso todo dia, enfrentando o mesmo trânsito, tratando de vencer as distâncias em menos tempo possível. Já o tempo do turista é do extraordinário, onde cada elemento da cidade - por ele desconhecida ou pouco conhecida, ou ainda reconhecida (quando se confronta imaginário com realidade) – é novidade. Ele sorve cada pedaço do lugar. E o percurso já é a viagem. As fotos são tiradas de dentro de um ônibus, de uma van, de um carro de passeio, etc.



    Percebam como os lugares turísticos são iluminados, com policiamento ostensivo e atenção especial para a qualidade do asfalto, vias para bicicletas, patins, skate, etc. Restaurantes, bares, arborização das praias, tudo faz parte dessa zona turística, uma zona onde a economia gira. Faz circular riquezas, o que se denomina em turismo de “efeito multiplicador”, aquele dinheiro trazido de fora, de outro lugar. Enquanto as zonas não turísticas sofrem com a falta de transporte público de qualidade, com a insegurança, com pavimentação e iluminação precárias, onde o percurso para se chegar em casa vem depois de um dia cansativo de trabalho e só se quer chegar bem e em segurança, no caso do Brasil.

    O aclamado geógrafo brasileiro, Milton Santos, chama de "espaços luminosos aqueles que mais acumulam densidades técnicas e informacionais, ficando assim mais aptos a atrair atividades com maior conteúdo em capital, tecnologia e organização. Por oposição, os subespaços onde tais características estão ausentes seriam os espaços opacos”. (Santos e Silveira, 2001, apud Etges e Carissimi, 2011). Transpondo o conceito para o estudo do turismo, vamos ter os espaços luminosos-turísticos-extraordinários, e os espaços opacos-não turísticos-ordinários. 

    Sempre digo aos alunos de turismo que, depois de ser aluno, professor ou pesquisador de turismo, a viagem nunca mais será a mesma. O olhar muda. E tendemos mesmo a buscar zonas opacas em meio às zonas luminosas. Ou seja, enquanto turistas nosso olhar nos guia para outros aspectos que não sejam somente àqueles do nosso deleite turístico. 

    O turismo, esencialmente, se move tal qual qualquer outra atividade econômica do nosso tecido social. Nele enxergamos as contradições inerentes à força do capital. De um lado, por exemplo, há quem pague (caro) pra ter um café da manhã no quarto de um lugar com uma vista paradisíaca. Do outro, a estrutura laboral que a sustenta.

    

    Da vista de Santorini, se enxerga o panorama inebriante que se descortina e, ao simples girar do olhar, o movimento dos funcionários num subir/descer escadas como em um fragmento da fábula “a cigarra e a formiga”:

- Ei, formiguinha, para que todo esse trabalho? O verão é para gente aproveitar! O verão é para gente se divertir!
- Não, não, não! Nós, formigas, não temos tempo para diversão. É preciso trabalhar agora para guardar comida para o inverno.



    E de fato, o trabalho em turismo, em sua maioria, é sazonal. Na Europa é comum ver hotéis ou estações turísticas próximas ao mar que fecham durante os seis meses do inverno. Ou seja, trabalham como formiguinhas durante o verão para ter dinheiro suficiente para fechar no inverno. As avenidas que concentram hotéis nestes lugares parecem “cidades fantasmas” no inverno.

    Os trabalhadores, operários do serviço turístico (que na Disney fazem de tudo para que sejam “invisíveis” aos turistas), comumente habitam em cidades/lugarejos circunvizinhos (porque morar em cidade turísticas é muito caro), ganham salários baixos ou razoáveis em troca de jornadas intensas. 

    A estrutura turística se comporta de modo muito parecido. Quanto mais você viaja, mais você vai percebendo as semelhanças dessa engrenagem. E temos que tocar nesse ponto para que possamos olhar mais para esses aspectos, valorizar mais os trabalhadores da atividade e também para pensarmos em modalidades de turismo que ao invés de concentrar, distribuam riquezas, principalmente quando falamos de Brasil, de sua desigualdade social, extensão e diversidade cultural.

    No Brasil, temos nosso próprio exército de trabalhadores e mão de obra de reserva, dado os índices de desemprego. Nos países da Europa esse exército é formado pelos imigrantes. No caso de Santorini, são pessoas da Albânia, Irã, Paquistão, Bangladesh, etc. Os gregos têm um status melhor. Em entrevista com o motorista da van que nos levou ao aeroporto, ele nos relatou que os salários giram em torno de 700 a 1.500 euros, sendo os imigrantes os que, normalmente, menos recebem. Evidentemente que 700/1.500 euros na Europa têm um poder de compra substancialmente maior que o do Salário Mínimo de 1.200 reais do Brasil. Ora, na Europa, os centavos têm poder de compra: você pode comprar dois litros de água mineral por 0,35 centavos, uma baguete ou um croissant por 0,36. Com 15 euros você pode fazer uma feira com itens como queijo, suco, frutas, presunto, biscoitos, pães, etc. No Brasil, bastava somente um queijo (barato) para dar esse valor. 

    Voltando à Santorini, esta é uma ilha turística pequena, levando em consideração que em três dias você pode percorrer a Ilha toda de motocicleta (de Oia a Akrotiri), gastando 30 euros para o aluguel de uma scooter e 5 euros de consumo (o que é preciso pra reabastecer e entregar a moto). 





    Não é um lugar recomendado para crianças, cadeirantes ou idosos. Eu disse recomendando, mas qualquer pessoa com os devidos cuidados pode visitá-la. O fato de ter suas casas construídas sobre as rochas (ao redor da caldeira de um vulcão, de onde vem o mito de "Atlântida, o reino perdido"), uma atacada à outra, com acesso somente por meios de escadas íngremes (elevador é palavrão e bêbado lá não tem vez), faz com que equilíbrio, fôlego e atenção sejam uma constante, pois a beleza é proporcional a probabilidade de queda. Ou seja: é, literalmente, um lugar de tirar o fôlego e de cair o queixo! Eu acho que devia haver um movimento dos trabalhadores reivindicando o “adicional escada”. Toda vez que eu via o rapaz carregando a bandeja do café da manhã, eu rezava em silêncio para Nossa Senhora dos Degraus protegê-lo. 



    Outro fator que chama a atenção é a exploração das mulas no transporte de turistas. Elas são “ideais” (tração nas quatro patas) para o transporte dos que chegam do Porto até a rua principal das diversas localidades da Ilha. É impressionante a logística de transporte de Cruzeiro na Ilha. São várias baías de tamanhos diversos que abrigam navios de pequeno e grande porte. Existe um teleférico também como opção, mas as mulas se tornaram símbolo do lugar. Tem até um nome para os lugares onde há percurso de mulas: em italiano, “mulattiera”. E, claro, lá vem de novo os “chatos” dos professores ou alunos de turismo que vão questionar o uso dos animais para transporte. 





    Em um determinado ponto da Ilha, quando passeávamos, e eu embasbacada com as paisagens, estávamos nos aproximando da mulattiera. Eis que Nicola diz: olha lá, as mulas passando! E eu: onde? Segui a direção dada por ele numa carreira danada. Fui buscar fôlego até onde eu não tinha. Consegui chegar mais perto do cocô das mulas do que delas propriamente ditas. E posso dizer: a cena não me cheirou nada bem! 

    


        Uma turista italiana escreveu o seguinte texto no tripadvisor:

    "Per raggiungere il porto di Fira ci sono ben 587 gradini da fare. Scendere non è affatto faticoso se non fosse per l'attenzione a non calpestare gli escrementi degli asinelli e sopportare il loro cattivo odore! E' comunque un'esperienza da fare. Scendendo si può godere del bellissimo panorama della montagna e del mare. A salire è stata una bella esperienza provare a cavalcare il mulo e anche piuttosto divertente. Il costo è di 5 euro. In alternativa c'è la funivia oppure una bella passeggiata abbastanza faticosa!"

    Ela diz que são 587 degraus do Porto até Fira e que descer não é cansativo se não fosse pela atenção que deve ser dada para não pisar no coco das mulas e suportar o mau cheiro das fezes pelo caminho, mas recomenda a experiência dada a beleza da paisagem. Para ela foi uma bela e divertida experiência subir as escadas de mula ao custo de 5 euros (e que existe a opção de subir de teleférico ou mesmo a pé, esta última bastante cansativa. De fato! 587 degraus não é para fraco não! É interessante perceber que quando as mulas são usadas em seu benefício, ela esquece do odor das fezes que acabara de reclamar. Todo turista age um pouco dessa maneira. É só fazer um exame de consciência. 

    Assim como no Nordeste o “jumento é nosso irmão” e então, certamente devemos ter as nossas “jumenttieras”, em Santorini, as mulinhas são mascotes, eternizados e romantizados em seu duro ofício de subir e descer sinuosas e íngremes escadas, remunerando os donos das mulas e os artesãos e seu industrianato. 



    Será que um dia elas ainda irão se revoltar, criar um sindicato e fazer greve? Eita mulinga! Ia ser um movimento da mulesta!!! Elas diriam: “Chega de ganhar dinheiro nas minhas costas, às minhas custas”!!! E se a situação não mudasse, pegariam um navio, fariam um Cruzeiro com destino à França e se tornariam as primeiras dançarinas de quatro patas do “Mulan Rugi”. 
    Espero que a minha narrativa tenha feito algum sentido para vocês. Afinal, eu não falei grego. Ou falei?! Por fim, deixo essa mensagem de paz, compreensão e respeito.





     A seguir, mais alguns registros dos encantos de Santorini.























No próximo post falaremos da cultura incandescente dos vulcões: de Santorini (Grécia) a Sorrento (Sul da Itália), entre outros assuntos.

Ps. Créditos das fotos: Rosalma Diniz Araújo, 2021.











Comentários

  1. Adorei <3 Ainda não conheço Santorini mas você trouxe um ótimo relato. Como é incrível imaginar que já me dislumbrei tantas vezes com os enquadramentos fotográficos encantadores da paisagem, sem imaginar as questões relacionadas a mobilidade. Fiquei surpresa com o uso das mulas, as fezes, os dregaus. As referências de Milton Santos <3 aquecem o coração. Muito digno o adicional escada. Xero. Marina

    ResponderExcluir
  2. Excelente o texto, Professora Rosalma!!!
    O profissional do turismo realmente "vê além do espaço luminoso", mas a alegria e o encantamento continuam nos impulsonando! :-)
    Att.,
    Nazareno Felix

    ResponderExcluir
  3. Incrível é poder viajar em tantos detalhes de um lugar lindo, sem ao menos precisar sair de casa <3, gratidão pela sua existência, beijoo!!

    ResponderExcluir
  4. Adoro sua visão profissional e ao mesmo tempo bem humorada sobre os assuntos mais diversos. Acredito que essas mulas devem ter as patas de dar inveja as marombeiras... Crossfit de elite! Kkkkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  5. Olhar crítico sem perder o cuidado e admiração pelo novo, que não teria graça nenhuma se fosse apenas questionado e não apreciado. Obrigada por trazer o equilíbrio - além de belas imagens. ��

    ResponderExcluir
  6. Seeeensaaaacional, Zalminha! Delícia de texto e fotos...você consegue nos ofertar um recorte riquíssimo do que vivenciou. Contrate social, a beleza da paisagem, Humor, cultura local, os bastidores que evidenciam quem verdadeiramente faz o mercado do turismo funcionar, bem como a dificuldade que é viver de temporadas,etc. Uma delícia ler e conhecer suas andanças através da tua ótica. Que venham os próximos capítulos do Reflexo das suas Observâncias. 😘

    ResponderExcluir
  7. Amei! Que relato incrível, você é sensacional, Rosalma! Fiquei encantada e com vontade de viajar o mundo, que bom que posso viajar com você nos seus textos!!!!! ❤️❤️❤️ Saudade

    ResponderExcluir
  8. Adorei o texto, por ora, pensei que estava lendo uma narrativa e fiquei curiosa pelos próximos capítulos. Viajei para Santorini, e não vejo a hora da próxima viagem por meio da sua escrita.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Falaremos de turismo, entre outros "trópicos"!